"Fazia live para mim mesma": Bagi conta reviravoltas da profissão e mudança de público focando em criar "espaço seguro"
Influenciadora deu volta por cima focando na construção de uma comunidade inclusiva
16/03/2025 às 10:53 | Atualizado 16/03/2025 às 11:06
“Fazia live para mim mesma e a aba anônima que estava checando se estava tudo certo”. Gabriela Cattuzzo, hoje conhecida como Bagi, é uma das influenciadoras focadas em jogos eletrônicos mais conhecidas do país com seu um milhão de seguidores na Twitch — plataforma à qual mais se dedicou pela maior parte de seu trabalho como criadora de conteúdo. Mas a streamer acredita que fez o processo da forma “inversa” se comparado ao caminho que outros que se tornaram seus colegas de trabalho seguiram na mesma época.
Para ela, o fato de ter começado do zero na Twitch sem já ter experiência em outras plataformas foi e ainda é muito mais “sinuoso” do que aproveitar uma base já existente para te assistir. “Eu defini uma meta comigo mesma: iria transformar a live em um trabalho maior se eu conseguisse tirar pelo menos um salário mínimo com a Twitch por mês”. Bagi começou em meados de 2016, quando o valor mensal que recebia como vendedora em um shopping center do Rio Grande do Sul era aproximadamente R$ 880.
Ela relembra que saiu do trabalho fixo quando, com em média 40 inscrições em seu canal, arrecadou por volta de mil reais. “Quando tive a chance de fazer a troca, fiz”. Ela reconhece que seu conteúdo passou a atingir mais pessoas de forma até rápida pela colaboração com outros streamers, o que faz parte de sua rotina até os dias atuais.
Pode parecer clichê, especialmente no auge da popularidade de influenciadores brasileiros, dizer que é preciso enxergar o seu conteúdo como algo constantemente atraente para o maior número de pessoas possível. Mas houve um momento no Brasil em que pessoas como Gabriela viram suas oportunidades se tornarem mais palpáveis para além da incessante busca por audiência: a estreia do Facebook Gaming.
Em 2019, a empresa hoje conhecida como Meta lançou uma plataforma dentro da rede social Facebook dedicada a transmissões ao vivo e fez um grande investimento no Brasil, contratando desde streamers pequenos até chamativos nomes do mercado com contratos de milhares de dólares e poucas exigências. Entre os nomes escolhidos para o lançamento, Bagi estava lá e atesta que foi a primeira vez que pôde sentir mais confiança para investir em si própria.
“O Facebook Gaming iniciou uma onda de estabilidade para os streamers que não existia antes. Quando recebi a oportunidade, nem pensei duas vezes, porque era um dinheiro muito bom. [...] Quando fui contratada, finalmente pude me mudar do Rio Grande do Sul para São Paulo”.
Isso fez com que, conforme a opinião da streamer, a indústria de influência nacional passasse a mudar a forma como enxergava livestreams de jogos. Entretanto, a falta de estratégia para que o Facebook ganhasse tanto quanto investia nos criadores de conteúdo fez a plataforma ser encerrada em 2022.
“Nós falávamos diretamente com os engenheiros para dar os nossos feedbacks, porém eles tinham as limitações da plataforma e o Facebook queria fazer de uma forma específica. Então eles não tinham muitas ferramentas para monetizar a live de volta”.
As mudanças fizeram muitos voltarem à Twitch — assim como Bagi — com contratos focados em estabilidade antes mesmo do Meta encerrar o serviço. Tal formato de trabalho, no entanto, também vem sendo reduzido lentamente e, de acordo com a streamer, “vários [influenciadores] que tinham contrato já não têm mais”.

“Voltamos à estaca da instabilidade”.
A redução em como a Twitch e outras plataformas de conteúdo ao vivo recompensam financeiramente os produtores de conteúdo não é segredo. A plataforma da Amazon sofreu duras críticas no passado ao diminuir para 50% o valor que os streamers recebiam de cada inscrição em seus perfis. Embora essa medida tenha sido revogada, o trajeto do “salário” dos Estados Unidos ao Brasil passa por impostos significativos que transformam em “poucos centavos” a quantidade de dinheiro que, por exemplo, um anúncio ou uma inscrição individual rende ao influenciador.
Bagi aponta que a nacionalização do valor da inscrição — hoje, um sub básico é R$ 7,90 — ajudou ao público, mas fez o valor direto repassado ao influenciador diminuir pelo trânsito do dinheiro.
Se há males que vêm para o bem, a necessidade de explorar mais formatos criativos é um dos pontos altos da carreira de Bagi hoje. Apesar de dizer que o estado das plataformas na atualidade fez o mercado regredir “à estaca da instabilidade”, ela reconhece que passou a ser cada vez mais ágil em reproduzir sua persona em todos os cantos da internet. “A marca precisa que você esteja em vários lugares porque a marca também quer estar em vários lugares”.
E quando digo persona, me refiro também a tudo que a streamer construiu ao redor de si.. Se em 2019 ela tinha seu contrato com a Razer encerrado por reagir aos assédios que recebia em suas redes sociais, hoje Bagi é uma das vozes buscadas por uma jovem e ativa comunidade consumidora de conteúdos de jogos preocupada com a expansão da diversidade em um nicho cultural conhecido por suas problemáticas.
“Não é novidade para ninguém que sempre externalizei muito meu posicionamento. Sempre achei muito importante usar a minha voz, principalmente depois que ela passou a ser mais ouvida, para falar de causas que antes não se falavam ou de grupos que não eram ouvidos o bastante”.
“Sou parte da comunidade LGBT, sou uma mulher que passou por situações inacreditáveis, então gosto de falar sobre”.
Como participante frequente do RPG Ordem Paranormal, talvez o mais recente fenômeno para jovens no YouTube brasileiro, ela viu seu público ser lentamente modificado conforme se tornava mais vocal quanto ao que desejava transmitir aos seus telespectadores. Bagi, que começou sua carreira lendo “centenas de comentários” com o intuito de ridicularizá-la pelos títulos que tinha preferência em jogar — seja sozinha ou com seus amigos de escola, com os quais fazia as famosas LAN parties.
Ela discorda veemente de que a comunidade de games era “majoritariamente masculina” na época em que começou a transmitir conteúdo. “As mulheres pouco falavam [...] porque toda vez que falavam, viravam chacota, elas não eram ouvidas pelas pessoas”.
Um de seus desejos, e que pôde ser alcançado mais recentemente, é conseguir conversar tudo com naturalidade com o seu público e, em especial, os adolescentes. “Isso fez obviamente parte da comunidade masculina se afastar um pouco do meu conteúdo, mas isso abriu portas para muitas pessoas que me assistiam às vezes em completo silêncio serem mais verbais”.
“Apesar de todo mundo estar lá, as mulheres estarem lá, as pessoas não-binárias, a comunidade LGBT — todo mundo estava lá, mas não era verbal porque sempre foi um ambiente bem hostil. Todo mundo que foi muito verbal sobre os direitos das minorias no começo foi muito escorraçado e muito maltratado pela comunidade em geral”.
“Já faz muito tempo que não é um assunto para ser tratado como tabu. Então tentamos incluir em tudo que fazemos, sempre de uma forma muito natural, obviamente, porque pô, sou parte da comunidade LGBT, eu sou uma mulher que passou por situações inacreditáveis, então eu gosto de falar sobre isso.”
Ela, que passou a sentir o impacto do crescimento de sua carreira somente após o término da pandemia de COVID-19, conta com alegria poder ir a eventos e relacionar rostos de telespectadores aos nomes lidos rapidamente nas transmissões anteriormente diárias. “Isso é inconcebível na minha mente porque sou só uma streamer”, disse, enquanto comentava sobre Ordem Paranormal e como o RPG impactou ainda mais na mudança de seu público.
“Me orgulho bastante de ser considerada um espaço seguro para essas pessoas e sou muito feliz de ter um público jovem me acompanhando também. [...] Quando eles chegarem em casa, pretendo estar em live ou produzindo algum conteúdo que faça eles se sentirem abraçados, pelo menos, em algum lugar.
Se não no dia a dia deles, se não na casa com a família, se não no ambiente escolar, de ensino, enfim, faculdade ou no trabalho, que eles sejam abraçados pelas pessoas que criam conteúdo para eles”.
“Não sabemos por quanto tempo vamos ser interessantes ao público”.
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Essa é uma incerteza que dificilmente sai da cabeça de quem trabalha na mesma posição de Bagi — e não são poucos os nomes que, ao não saberem como se reinventar, desistiram da carreira. Mas a trajetória da influenciadora sulista já mostrou a ela possíveis caminhos pelos quais quer se aventurar, ainda que a decisão de parar de fazer transmissões ao vivo seja algo bem distante.
“Hoje em dia tenho público que gosta de consumir o que produzo, que tem interesse pelo o que faço. E isso é ótimo porque me mantém em evidência, me mantém querendo produzir conteúdo, me mantém sendo procurada por marcas. Uma frase um pouco triste, mas não sabemos por quanto tempo vamos ser interessantes ao público”.
“Eu, de fato, consegui conquistar uma liberdade financeira que nunca imaginei que ia atingir principalmente pela realidade de onde vim. Acho que o melhor que podia conseguir para mim na minha vida, na minha cabeça, era trabalhar num emprego que me desse um salário bem mediano”.
Ela diz que esse alívio a faz poder pensar e recalcular suas estratégias de tempos em tempos, como o que fez quando decidiu focar mais em publicidades em plataformas como Instagram e não apenas em transmissões.
“Hoje em dia consigo às vezes ficar uma semana off para escrever roteiros de coisas que gostaria de gravar e ter essa dedicação para várias outras redes, que acho extremamente necessária hoje em dia para você conseguir se comunicar com diversos públicos”, disse, referindo-se a possíveis seguidores que não exatamente gostem ou tenham acesso ao consumo de vídeos de jogos e citando Ordem Paranormal como um exemplo de produção acessível.
“O mercado publicitário tem uma visão muito estranha de nós que trabalhamos nessa área de games. Eles acham que a gente almoça mouse e janta teclado. Você pode produzir conteúdos que falem sobre bem-estar, que falem sobre saúde, que falem sobre o consumo de cultura pop”, comentou ao explicar maneiras pela qual influenciadores de games podem se diversificar.
Outra possibilidade que faz seus olhos brilharem é o desejo de trabalhar “entre as câmeras” — uma expressão incomum para dizer que deseja explorar sua voz. A breve experiência dublando sua personagem no jogo Enigma do Medo também instigou um desejo de explorar essa carreira. Ela diz que Fred Mascarenhas, diretor de dublagem do game, a incentivou ao elogiar sua voz como “única”. “Já trabalho bastante com a minha voz, então não seria muito distante — preciso de mais aula de interpretação”.
Ela também cita a possibilidade de trabalhar com o mercado de marketing de influência em si. “Diria que o mercado de influenciadores é uma pequena bomba relógio [...] Acho que teria muito a agregar com os anos de experiência que tive na frente das câmeras”, disse.
Mas tais ideias não significam que Bagi deixará a carreira de influenciadora amanhã ou depois. Como a imensa maioria de quem compartilha a posição profissional com ela, a necessidade de reinventar-se é constante e, por enquanto, a streamer se vê segura nas decisões de carreira que tomou para certificar-se da longevidade de seu impacto virtual e real.